** Jorge Natal, O Aquiri**
O Brasil tem parte considerável de seu PIB (Produto Interno Bruto) oriundo do agronegócio. Com suas dimensões continentais, o território brasileiro rivaliza com os EUA como duas potências territoriais mundiais e também na produção e exportação de alimentos. Esse caminho é tão inevitável que o Acre é a última fronteira agrícola.
O economista e escritor Celso Furtado defendia que a agricultura chegasse aos rincões para desenvolvê-los de forma exógena (de fora para dentro) – ou seja, do interior para os grandes centros urbanos. “Se tivermos produção agrícola, nos alimentaremos melhor e o excedente irá para a exportação”, disse o então ministro do Planejamento do Governo João Goulart, ao formular uma cadeia produtiva, chamando-a de autodesenvolvimento. Além de criar uma classe média no campo, essa política agrícola ajudaria a conter o êxodo rural.
Apesar de o Acre ter dado um salto nesse setor, os pequenos produtores rurais estão abandonados à própria sorte. “Não existem políticas públicas para a agricultura familiar”, declara o presidente do Sindicato dos Extrativistas e Trabalhadores Assemelhados de Rio Branco (Sinpasa), Josimar Ferreira, de 52 anos, que vai denunciar o descaso na próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), a qual acontecerá em novembro, em Belém (PA).
O sindicalista diz ter como causa a defesa da agricultura familiar, o que é, segundo ele, vital para a qualidade dos alimentos, bem como fonte de geração de emprego e renda no campo. “Mas isso é possível se tivermos estradas, assistência técnica, garantia da produção e financiamentos. Aqui nunca existiu uma política agrícola de Estado”, enfatiza Ferreira, apontando a sua metralhadora giratória para as três esferas de poder.
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**“As políticas públicas são ausentes na zona rural”**
Em uma das salas do sindicato, ele recebeu a nossa reportagem para falar sobre as lutas e as conquistas do seu mandato, do advento da produção de grãos em larga escala, da pecuária de corte e leiteira, do extrativismo e principalmente da ausência de políticas públicas no campo. “Os recursos do Fundo Amazônia são para gringo ver”, dispara o líder sindical, que também vai denunciar as violações à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Veja os principais trechos da entrevista:
**O Aquiri – Como o senhor se tornou agricultor?**
**Josimar Ferreira – **Desde cedo, eu ajudava a minha mãe na lida. Ela tinha um plantio de banana, a gente juntava coquinhos no mato e colhia mangas para vender nas feiras. O meu pai colocava roçados e eu o imitava. Eu terminei o segundo grau, comprei uma propriedade na região da Transacreana. Depois me tornei o presidente da Associação Nova Esperança. Hoje sou diretor da Fetracre (Federação dos Trabalhadores Acreanos da Agricultura Familiar).
**O Aquiri – Como é ser pequeno agricultor em Rio Branco?**
Josimar Ferreira – Uma ida ao Ceasa pode perfeitamente responder essa pergunta. Praticamente você não vai encontrar produção em Rio Branco. Para isso acontecer, é preciso ter gestores nos órgãos responsáveis pelo fomento dessas políticas. Eu estou me referindo às três esferas de poder – ou seja, à União, ao governo estadual e ao município. Não existem políticas voltadas para o setor produtivo dos pequenos. Tipo assim: podem produzir que vamos dar acesso. O Ceasa é um mercado de atravessadores. Os gestores, que estão nesses cargos estratégicos, estão voltados apenas para fazer politicagem e sugarem o dinheiro público. Não existe mecanização, ramais com acesso, ciência e tecnologia. Eu conheço uma propriedade que tem quinze mil pés de banana e quem está comendo são os macacos. Outro jogou cinco mil abacaxis no rio. Aqui mesmo, na Transacreana, existem galpões abarrotados de milho e arroz, mas existem trilhadeiras e debulhadeiras.
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**“Além de passar fome, as crianças estão bebendo água contaminada”**
**O Aquiri – O que Rio Branco produz hoje?**
**Josimar Ferreira – **O mesmo que produz há décadas. Cebolinha, coentro, chicória, pimenta de cheiro, couve, banana e macaxeira. Não existem políticas públicas voltadas para outras culturas. E vou lhe dizer mais: isso é para consumo in natura, ou seja, não existe uma única agroindústria em Rio Branco. Isso deveria ser uma vergonha para os políticos. Tudo o que consumimos aqui, vem de fora. A nossa capital praticamente não produz nada.
**O Aquiri – Como o senhor avalia o aumento da produção de café?**
**Josimar Ferreira –** Nada contra essa produção. Porém, o poder público poderia incentivar outras cadeias. A cultura do café não é para os pequenos, uma vez que requer grandes investimentos e não temos acesso a créditos. As instituições bancárias exigem o documento da terra e a maioria das nossas propriedades não tem. O Incra e o Iteracre ainda não cumpriram os seus papéis. Ah, os bancos também querem garantias.
**O Aquiri – E como é a vida na floresta? **
** Josimar Ferreira – **Rio Branco tem muita floresta. Aqui se produz muita castanha e borracha. Mas a dificuldade de tirar essa produção é muito grande. Só no Ramal do Noca, no quilômetro 45, da Trasacreana, sai mais 60 mil latas de castanhas por ano. Teve uma emenda parlamentar de um senador de R$ 4 milhões para esse ramal. Esse recurso nunca chegou lá. E os seringueiros que vivem isolados na mata? Você quer saber a verdade? O Estado brasileiro não chega lá – ou seja, eles não têm nada, absolutamente nada. Eles vivem isolados como se fossem animais. O que é básico como saúde e educação, garantidos pela Constituição, não existe isso por lá. Quando acontece um acidente grave, a possibilidade de morte é enorme. Tenho inúmeros casos para denunciar. Mais uma coisa: além da fome, as crianças estão tomando água contaminada nas escolas. E não existem banheiros.
**O Aquiri – É possível ter qualidade de vida morando nas reservas extrativistas?**
**Josimar Ferreira –** Eu acredito que sim, embora, neste momento, não exista possibilidade de se auferir renda. O poder público não oferece alternativas e os extrativistas estão abandonados à própria sorte. Há um limite para a criação de gado, se não me engano são 30 cabeças. Eu acredito que, se colocássemos 30 vacas leiteiras PO (Pura Origem), por propriedade, seria uma redenção para os moradores. Além da segurança alimentar proporcionada pelo leite e seus derivados, eles teriam uma renda mensal de R$ 12 mil. É preciso dotá-los das condições necessárias, além de um acompanhamento técnico e gerencial, uma vez que os extrativistas ainda não são empreendedores.
**O Aquiri – E as questões ambientais?**
**Josimar Ferreira –** É muito bonito falar em preservação. É lindo falar em salvar o planeta. Esse ano vai ter a COP 30 e vou lá denunciar. Vou dizer como vivem esses trabalhadores nas áreas de proteção ambiental. O ICMBio é o pior inimigo dessas pessoas. O que esse órgão puder fazer, para piorar a situação, ele faz. Proíbe tudo e não oferece nada. A vida nas reservas extrativistas é de escravidão e humilhação. Eu queria que o mundo rastreasse a borracha e a castanha, como eles fazem com o boi. Dessa forma, o mundo saberia como vivem esses brasileiros.
**O Aquiri – E para que serve o Fundo Amazônia?**
**Josimar Ferreira –** Essa é uma boa pergunta. São recursos internacionais para investir na preservação ambiental. Poderia levar dignidade e qualidade de vida para quem realmente preserva, que são as famílias que sobrevivem da floresta. No entanto, a realidade é outra. Quem sobrevive lá não sabe, nunca viu nem ouve falar desses recursos.
**O Aquiri – O senhor é candidato à reeleição no início do próximo ano. Por quais razões os agricultores devem votar no senhor?**
**Josimar Ferreira –** Quando eu assumi o sindicato, há três anos, o CNPJ do sindicato estava desativado desde 2013. Além disso, não tínhamos sequer uma conta aberta. Além do trabalho de base, organizamos e estruturamos tudo. Estamos disponibilizando os serviços do INSS aqui, e de forma célere. Estamos também expedindo o CAF (Cadastro Nacional da Agricultura Familiar). Firmamos convênios e parcerias com órgãos e entidades. Ah, eu ia me esquecendo: agora temos uma camionete e um barco. Nos próximos meses, em parceria com a União, estaremos expedindo títulos definitivos para os ribeirinhos que ocuparem áreas que pertençam ao governo federal, ou seja, faixas de terra às margens dos rios.

