**Tião Maia, O Aquiri**
**”Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado,
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”**
**Vladimir Maiakovsky**
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***Gladson Cameli anuncia show de Roberto Carlos no Arena da Floresta***
A se confirmar o anúncio do governador Gladson Cameli de que fechará seu segundo mandato no Governo do Acre em março de 2026, quando se desincompatibilizará do cargo para poder concorrer às eleições para o Senado, com um megashow do cantor Roberto Carlos no Estádio Arena da Floresta, em Rio Branco, não será a primeira vez que o chamado Rei da Música Popular Brasileira (MPB) pisará o solo acreano. Por aqui ele já esteve em 1973, quando fazia uma turnê por todo o Brasil, e se apresentou para o público acreano no Estádio José de Melo.
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**Roberto Carlos pisou o solo acreano em 1973** Foto: RC
Na época, já um cantor consagrado e no auge da chamada Jovem Guarda (JG) e de seu sucesso, as músicas lançadas no LP que caíram no gosto popular daquele ano eram “A Cigana”, “Atitudes” e “Proposta”, que levaram o público acreano ao delírio numa cidade ainda carente de espetáculos de tamanha envergadura.
Numa rara entrevista concedida em sua vida, ao desativado “Blog Alma Acreana”, em 2017, o musico Luiz Felipe Jardim, falecido em 2024, aos 68 anos de idade, falou sobre aquele show no qual ele foi um dos milhares de espectadores. “Um Rei é pessoa que acumula privilégios. E o maior de todos é realmente o de ser rei. Se acumula, o Rei também distribui privilégios. Espalhando guerras ou canções, espada ou emoções, tudo de acordo com a natureza de seu reino e espírito de seu reinado”, teria definido o músico arredio à exposição pública, ao falar sobre o ídolo.
“Como não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e nem percorrer muito tempo tantos lugares de um reino tão grande como o do Brasil, o Rei coroa com o privilégio eterno da memória os lugares onde esteve. Os lugares por onde passou. E o Rei esteve aqui”, disse o Blog. “Antes de tudo, é importante lembrar que certas pessoas, por sua importância social, deixam de ser somente elas e passam a ser elas e muito mais. Essas pessoas representam épocas, são parâmetros para a História, Economia etc. Roberto Carlos é umas dessas pessoas. Ou seja, ele é o que ele é independente do que as pessoas acham que ele seja; mas é simultaneamente, tudo aquilo que as pessoas pensam, acham e dizem que ele é. Portanto, RC é um ser plural: ele é ele mesmo, e muito mais. Aliás, muito mais do que ele mesmo”, definiu Felipe Jardim.
**Tempos de calhambeques e pantalonas**
Segundo ele, “RC adentra o cenário cultural brasileiro, no momento em que, nos governos JK, Jânio, Jango e posteriores, a indústria automobilística brasileira se delineava, se enraizava e se consolidava como ponta de lança da economia nacional. Roberto Carlos é um dos arautos desse processo com o seu ‘calhambeque’, e também com sua Jovem Guarda. Ambos cantavam os carrões, difundindo um fascínio, que se convertia em vontade coletiva, que se convertia em moda e consumo. “Entrei na Rua Augusta à 120 por hr”… “papai me empresta seu carro”… “meu Mustang cor de sangue” são ícones da JG que ilustram bem esse momento”, acrescentou.
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**Felipe Jardim, músico e poeta, falecido em 2024, viu o show de RC** Foto: RC
De acordo com o artista acreano, que viveu e morreu recluso em Rio Branco, “o sucesso da música Calhambeque trouxe para o mercado uma grif de roupas para rapazes e moças também chamada Calhambeque. Suas calças para rapazes eram bem apertadas, e as saias Calhambeque eram Minissaias. Por que isso? Em 1961 o governo de Cuba se mudou de mala e cuia para o outro lado frio da Guerra Fria, o lado Soviético. Na mala e cuia de Cuba estava, sua enorme produção de algodão, que até então abastecia parte significativa da indústria têxtil ocidental. Resultado: faltou algodão para todos os do lado da OTAN, principalmente, para o parque têxtil inglês”, apontou.
De acordo com as declarações de Felipe Jardim ao “Blog Alma Acreana”, “além de redesenhar e redimensionar as áreas de produção de algodão pelo mundo – onde até o nordeste brasileiro tirou uma casquinha revitalizando velhos e moribundos algodoais – outras duas linhas de emergência foram adotadas para superar a crise: intensificar pesquisas e produção de fios sintéticos, e além dos cintos, apertar as calças e diminuir o tamanho das saias do planeta. Lembra da camisa Volta ao Mundo? Da camisa Banllon? Das calças de Tergal? Eram todas marcas de fios inteiramente sintéticos que foram moda no planeta”.
**RC chega ao Acre no auge da ditadura militar e da Guerra Fria**
Foi nesse contexto do auge da Guerra Fria que Roberto Carlos aportou no Acre. “É nesse contexto que surge a minissaia. E embora ela tenha promovido uma grande revolução pelo mundo afora, nasceu de uma reação, de uma quase contra-revolução capitalista. Nasceu da necessidade imposta por uma conjuntura de mercado. No Brasil, RC e JG estão imersos até o pescoço nesses primeiros 15 minutos de fama da sociedade de consumo brasileira”, revelou…
Quando RC veio ao Acre, em 1973 já estava desvestido das apertadas calças “Calhambeque” do seu filme “RC Em Ritmo de Aventura, de 1967. Usava, agora, calças bem mais largas, de enormes bocas-de-sino e de tipo toureiro, que iam até o umbigo. Ou seja, muito pano para as mangas para compensar as perdas recentes da indústria têxtil ocidental capitalista”, definiu felipe Jardim. “O Brasil era um país essencialmente rural, mais de 70% de sua população estava no campo. Além disso, era iletrado e tinha taxa de natalidade de quase 6 filhos por mulher em idade fértil. Mas era um pais que mudava. E bem rápido, assim como Brasília nascendo. Havia intensa migração interna, intenso movimento. Aqui e no mundo todo. Aliás, o mundo estava de mudanças e mudavam pessoas e ideias, por todo o mundo”.
Em 2026, Roberto Carlos deve encontrar um Acre bem diferente do que viu em 1973. Primeiro, vem cantar na despedida de um governador bem diferente das características daquele que governava o Acre em 1973, o professor Francisco Wanderley Dantas, o “Dantinha” – numa cariunhosa mas preconceituosa referência à sua altura de 1m57. Era o terceiro governador acreano nomeado pela ditatura militar que havia tomado o poder e a democracia de assalto no Brasil, em 1964.
Características bem diferentes das do governador atual. Gladson Cameli, que iniciou sua vida pública em 2006, quando se elegeu para o primeiro mandato de deputado federal, foi reeleito em 2010, em 2014 se elegeu senador da República e em 2018 foi eleito governador no primeiro turno. A mesma façanha de vitória no primeiro turno foi obtida em 2022, na reeleição e desponta como favorito para voltar ao Senado em 2026.
É um governador de perfil vitorioso que Roberto Carlos deverá encontrar no Acre em 2026 num show que deverá marcar a história acreana de forma indelével. A se confirmar o show, Roberto Carlos será, a um só tempo, protagonista e figurante de uma festa democrática na história do Acre.
Uma festa que vai mostrar ao Brasil que o Acre não só existe como também mostrará que a verdadeira e autêntica democracia pressupõe liberdade e alegria, apesar de ainda existir tantas coisas a fazer. Mas, se não estamos alegres, por que razão estaríamos tristes ?– perguntaria o poeta.

