**Tião Maia, O Aquiri**
O músico e o homem que eram ao mesmo tempo maestro da floresta e a trilha sonora dos empates e outros movimentos dos trabalhadores no Acre, que embalava os discursos de Chico Mendes e os sonhos políticos do militantes como Abrahim Farhat Neto, o “Lhé”, Francisco Monteiro de Carvalho, calou-se. ‘Monteirinho’, como era conhecido pelo som de sua inseparável sanfona, morreu na madrugada na noite de sexta-feira (26/9), em Rio Branco, aos 76 anos, vítima de pneumonia.
Músico e militante político filiado ao PT, natural de Xapuri e parceiro de Chico Mendes desde os primeiros movimentos, no início dos anos de 1970, contra a derrubada das florestas, ele sempre terá seu nome vinculado história coo um dos artistas mais importantes da música popular acreana, cuja obra nasceu nos seringais da região do Alto Acre e chegou aos palcos, festas juninas e movimentos de base da Capital. “Onde houvesse uma concentração de trabalhadores, fosse numa manifestação política ou mesmo em momentos de lazer, lá estava ele com sua sanfona”, disseram, em nota, seus companheiros de PT, em nota emitida após seu falecimento.
“Com imensa tristeza, recebemos a notícia do falecimento do nosso querido Monteirinho, homem simples, de sorriso largo, voz marcante e sanfona sempre a postos para animar a vida da nossa gente.
Nascido no Seringal Cachoeira, em Xapuri, Monteirinho cresceu entre a floresta e a luta, esteve ao lado de Chico Mendes e de tantos companheiros que acreditavam em um mundo mais justo. Mas foi na música que ele deixou sua marca mais profunda: com seu jeito único, fez o povo dançar nos seringais, nas colônias e nas cidades, levando forró, brega e alegria por onde passava.
Foram mais de cinco décadas embalando sonhos, contando histórias e cantando o Acre em versos e melodias. Monteirinho não cantava só para divertir, cantava para resistir, para fortalecer, para lembrar que a vida é dura, mas também cheia de esperança.
O Partido dos Trabalhadores do Acre se despede de um militante histórico, um artista popular e, sobretudo, de um amigo querido. Vai fazer falta a sua presença, sua música, sua gargalhada. Mas fica o legado, fica a lembrança, fica a certeza de que sua sanfona seguirá ecoando na memória e no coração do nosso povo.
Nos solidarizamos com a família, os amigos, os companheiros de luta e todos os admiradores de Monteirinho. Ele não se vai por completo: continua vivo nas canções, nas histórias e na luta que ajudou a construir”, acrescenta a nota do PT.
“O Acre perde hoje o músico compositor da Reserva Chico Mendes. Lutou nos empates, gravou diversos álbuns em várias mídias até ser esquecido pela sociedade. A última vez que tocamos juntos tomamos um calote no cachê não pago pelo secretário da cultura da época. Não sei o que declarar, um misto de tristeza e revolta. Sua obra deveria ser aclamada com orgulho pelo povo acreano mas ele se foi sem ser tocado no rádio ou interpretado por outros artistas. . Calou se a trilha sonora da luta de Chico Mendes”, acrescentou um dos seus grandes amigos e parceiros, o musicista Adré Dantas.
“Monteirinho nasceu em 22 de julho de 1949 no Seringal Cachoeira, em Xapuri. Filho de seringueiros, cresceu entre histórias contadas sob a luz da lua e das lamparinas e sempre animando as festas na casa do tio Doca. Foi nesse ambiente que desenvolveu sua musicalidade, marcada por composições que misturavam forró, brega, marcha, bossa nova e mais. Muito mais. Inspirado por artistas como Dominguinhos, Sivuca, Trio Nordestino e Elba Ramalho, construiu um legado autoral que falava de bichos, rios, amores e lutas sociais.
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Em 2011, com mais de 50 anos de carreira, lançou o álbum “Acre em Música”, financiado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura. O disco reúne 14 composições próprias, entre elas “A luta não foi em vão”, em homenagem ao líder ambientalista Chico Mendes, de quem foi amigo e companheiro de militância. “Boa parte das minhas letras vem por inspiração; em outras, as pessoas me contam um ‘causos’ e eu invento a letra, que traz uma mensagem social e romântica”, disse à época.
Além da música, “Monteirinho” teve participação ativa na política. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre e esteve próximo das causas defendidas pelos trabalhadores da floresta. Em 2012, denunciou ao Ministério Público do Acre (MPAC) um caso de suposta negligência médica que teria causado a morte de sua esposa em um hospital público. O processo não avançou por falta de laudo do Instituto Médico Legal (IML).
Sua trajetória musical foi retratada em “Monteirinho: o Sanfoneiro da Floresta”, dirigido por Clemilson Farias. Com 14 minutos de duração, o curta-metragem acompanha o artista em uma celebração familiar, revelando ao espectador suas raízes sonoras. A obra foi exibida em 2016 na abertura do Festival Pachamama – Cinema de Fronteira, em Rio Branco, e em 2025 na Mostra Ver-O-Norte, no Rio de Janeiro (RJ). Era presença garantida nas edições do Arraial Cultural promovido pelo governo do Acre, no Arena da Floresta, onde se apresentava no palco Saudades do Seringal. Inclusive, já tocou ao lado de Raimundo Monteiro – irmão do artista. Em 2022, foi homenageado pela quadrilha CL na Roça, que levou ao circuito junino o tema “Da sanfona ao coração: Viva Monteirinho nas noites de São João”.
No mesmo ano, enfrentou problemas de saúde e foi internado no Pronto-Socorro de Rio Branco, à espera de uma cirurgia cardíaca. A gravidade do caso motivou um apelo público por doações de sangue, mobilizando parentes, amigos e admiradores. Na noite passada, porém, o artista encantou. Evocando a literatura da Amazônia, dizem que quando alguém muito ligado à floresta vai embora, não morre como os outros, mas vira encantado. Assim, o fole que antes animava os arraiais agora se mistura aos sons da natureza. E permanece existindo de outro jeito: deixa de ser corpo e vira memória viva.
O movimento cultural perde um de seus músicos mais autênticos, e os seringais, um de seus intérpretes mais apaixonados. O corpo está sendo velado desde às 2h deste sábado, 27/9, na capela 2 da Funerária São Francisco, localizada na Rua Isaura Parente – Bosque.

