“mãe da natureza”

Dilson Ornelas.do Rio de Janeiro (RJ)

Ainda há pouco, às 7 horas pelo horário do Rio de Janeiro, sentei-me no sofá gelado com uma xícara de café fumegante para ler a reportagem de Tião Maia sobre a assinatura do memorando que estenderá pelo Acre um caminho de trilhos e dormentes da Ferrovia Bioceânica, que ligará a Bahia a um porto construído pelos chineses no Peru. Tião Maia está hoje entre os jornalistas que mais dominam o assunto no mundo.

A reportagem explica, em detalhes, por que o trajeto da ferrovia dos sonhos talvez não avance pelo Vale do Juruá, como prometiam políticos acreanos em busca de votos fáceis dos moradores dessa região, mas sim pelo município de Assis Brasil. É aqui, nesta altura do texto, que chamo a atenção para uma figura humana de aparente fragilidade física, que desafia a lógica desenvolvimentista de um país jovem com pressa de crescer a qualquer custo.

No meio desse caminho, brasileiros e chineses sonhadores deparam-se com a presença incômoda da “mãe da natureza”, a Ministra Marina Silva.
Se ela está destinada a ser um mito, como seu amigo Chico Mendes, só o futuro dirá. Por enquanto, percebemos que ela trocou uma carreira promissora na política brasileira por uma intransigência teimosa em benefício das árvores e dos bichos da Amazônia, enfrentando, sem cerimônia, gigantes como Petrobras, Bolsonaro, Lula e Xi Jinping.

Certamente, as chances de a ferrovia passar pelo Vale do Juruá para chegar ao Oceano Pacífico são praticamente nulas. Agora que a ferrovia deixa o campo da especulação, chega à fase de documentação e acelera para os últimos estudos, o fato concreto é que, no meio do caminho, está a Serra do Divisor, que Marina representa nesse contexto, e que abriga o maior conjunto de biodiversidade do planeta. Quem se impressionou com a sua resistência à exploração de petróleo perto da foz do Rio Amazonas não imagina o que ela pode fazer para defender a Serra do Divisor. Marina Silva daria a vida um milhão de vezes, se fosse preciso, para proteger esse santuário.

É melhor que Lula e Xi Jinping deem outro rumo à ferrovia. A Serra do Divisor é muito mais que uma simples formação geográfica; é um santuário de vida, um laboratório natural de biodiversidade e um portal para mistérios ancestrais. Suas riquezas incalculáveis estendem-se por aproximadamente 8.430 quilômetros quadrados, formando um mosaico de ecossistemas, de florestas densas de terra firme a igapós e várzeas alagadas. Sua topografia única, com serras, planaltos e vales profundos, cria microclimas que abrigam uma explosão de vida.

Entre seus mistérios, estão milhares de espécies de plantas e animais ainda não catalogadas pela ciência. Falo de onças, antas, macacos de diversas espécies e uma profusão de insetos e de aves coloridas que pintam o céu da floresta. A região é pontilhada por cachoeiras cristalinas que despencam de formações rochosas, criando piscinas naturais de águas límpidas. Esses rios e córregos, muitos ainda inexplorados em suas nascentes, são as artérias da floresta, essenciais para a vida aquática e o ciclo hidrológico de toda a bacia amazônica. A névoa que se eleva das quedas d’água alimenta a vegetação exuberante e contribui para a umidade vital da floresta.

Além da riqueza natural, a Serra do Divisor guarda mistérios que remetem a tempos imemoriais. Vestígios arqueológicos e a presença de povos indígenas isolados, que vivem em harmonia com a floresta há séculos, adicionam uma camada de valor cultural e espiritual. Esses povos são guardiões de conhecimentos ancestrais sobre a floresta, suas plantas medicinais e seus segredos. A própria paisagem, com suas formações rochosas e cavernas, evoca lendas e histórias que se perdem no tempo.

É em nome de tudo isso que luta a mãe adotada pela natureza. Marina Silva, uma professora de voz quase inaudível, foi testada desde a infância e juventude pela natureza que a acolheu. Nos seringais, enfrentou cinco episódios de malária, além de hepatites e leishmaniose. Conheci pessoas que sucumbiram a uma única infecção de malária. Como alguém que sofreu tantas agressões da natureza pode defendê-la com todas as forças e meios?

Simples: a natureza é parte de sua vida. Ela aprendeu isso claramente aos 27 anos, quando conheceu Chico Mendes, que, para extrair o látex das árvores e garantir o sustento das famílias de seringueiros, precisou despertar a consciência global para a defesa da natureza, essencial para todos os seres que nela vivem e dela dependem.

Foi assim que a filha da natureza foi adotada para lutar por ela. Para a polêmica ministra do governo Lula, a construção e operação de uma ferrovia nesse bioma frágil causaria uma fragmentação maciça da floresta, destruindo habitats, isolando populações de animais e plantas e acelerando a extinção de espécies raras e endêmicas. A introdução de máquinas pesadas, o desmatamento para a passagem dos trilhos e a contaminação sonora e química seriam golpes fatais para um ecossistema delicado e complexo.

A alteração do curso de rios e córregos, a contaminação da água por resíduos da construção e a erosão do solo resultariam em sérios danos aos recursos hídricos da região, afetando não apenas a vida selvagem, mas também as comunidades ribeirinhas e indígenas que dependem desses corpos d’água.

Uma ferrovia traria consigo a invasão de territórios ancestrais de povos indígenas, incluindo grupos isolados com pouco ou nenhum contato com a sociedade externa. Isso representa uma ameaça direta à sua saúde, cultura e sobrevivência, além de violar seus direitos territoriais.

Há outros temores: a abertura de uma via de acesso como uma ferrovia em uma área remota e protegida pode servir como porta de entrada para atividades ilegais, como garimpo, extração ilegal de madeira, caça predatória e tráfico de drogas, intensificando a pressão sobre o parque e seus recursos.

A defesa intransigente do meio ambiente muitas vezes colocou Marina em uma posição impopular. Em um país que se sente “travado” em sua pressa por crescer, a visão de Marina, que preza pela sustentabilidade em detrimento do crescimento a qualquer custo, nem sempre encontra eco.

A disputa pela exploração de petróleo na foz do Amazonas é um exemplo latente dessa tensão. De um lado, a promessa de riquezas e desenvolvimento; de outro, o temor de um desastre ambiental de proporções incalculáveis para uma região tão sensível. Esse conflito, entre o desejo de progresso rápido e a necessidade de preservação, levanta a dúvida: será que a “mãe da natureza”, cada vez mais incompreendida por uma parcela da sociedade, ainda se reelegeria para cargos mais altos? Será que ela ainda sonha com isso?

De qualquer maneira, ela tem a simpatia e o apoio de muitos que sentem dor ao de saber que a beleza selvagem, construída em milênios, pode ser destruída em um piscar de olhos em nome de um progresso que não discerne o valor da vida em seu estado mais puro.

A Serra do Divisor, em sua majestade silenciosa, aguarda que mais pessoas ouçam a voz irritante da professorinha dos seringais, que um dia ousou parar a locomotiva do progresso desenfreado. É com isso que conta um pedacinho do universo de vida intocada, onde sobrevive a esperança de que a razão prevaleça sobre a urgência e que o rugido dos trens não cale o canto dos pássaros nem apague o brilho dos olhos que, em cada folha e em cada ser, veem o mais precioso tesouro.

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