**Tião Maia, O Aquiri**
Naquela noite de 21 de julho de 1980, uma segunda-feira, apesar do ambiente rustico em que tábuas e tamboretes eram improvisados como assento, aqueles homens se preparavam para dar continuidade às lutas pela posse da terra na região do Alto Acre, no dia. Em meio a rusticidade do ambiente, aqueles homens se permitiam alguns instantes de diletantismo depois de mais um dia de trabalho na renhida luta pela posse da terra na região do Alto Acre. Viam TV, num aparelho minúsculo e em preto e branco.
A programação da TV dependia das fitas em videocassete levadas de Rio Branco, de ônibus, para Brasiléia, no interior do Estado. Naquela sala, eles assistiam a mais um capítulo da novela “Agua Viva”, escrita por Gilberto Braga, em colaboração com Manoel Carlos. Naquela semana, o ônibus que levava a fita com as cenas da novela havia sofrido uma avaria e se atrasara ao ponto de aquela que seria um marco na teledramaturgia brasileira, marcando a estreia do ator Raul Cortez na Rede Globo de Televisão, como novela das 8, ser exibida fora de hora, bem tarde da noite.
Mas valia à pena esperar, apesar do cansaço e do sono: a novela exibia a exuberância da juventude da atriz Glória Peres, que fazia o papel de Sandrinha Fragonat. Era exatamente a filha de Miguel Fragonat, interpretado de forma impagável por Raulz Cortez, no papel de um homem mal, cruel, vil…
A vileza do personagem só não era maior que o que viviam aqueles homens e seus companheiros na novela da vida real do enfrentamento de seringueiros e colonos contra os fazendeiros, chamados de “paulistas”, que estavam derrubando as florestas para plantar capim para criação de gado. Wilson Pinheiro de Souza, João Bronzeado e Antônio Pies, respectivamente, presidente do sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e delegados sindicais, não exageravam quando denunciavam que os chamados “paulistas” queriam substituir a floresta pelo capim e o homem que vivia do extrativismo florestal pelo boi.
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**Lulas é preso e indiciado por causa do discurso em Brasileia**
O que antes era apenas uma guerra de retórica, havia extrapolado todos os campos da argumentação e a guerra agora era quase física. Havia um clima de tensão no ar, com ameaças de parte a parte. Aqueles três homens sabiam disso e, mais uma vez, tinham dúvidas se chegariam vivos ao final do dia seguinte.
Brasileia, com a maioria das ruas ainda de terra batida, com pouco mais de três mil almas vivendo no arremedo de cidade na divisa do Brasil com a Bolívia, na região do Alto Acre, assim como padecia de outros serviços públicos, vivia com a energia elétrica racionada. A energia era fornecida por uma casa de força tocada à lenha pela empresa estatal Eletroacre. Havia na cidade um acordo tácito entre a empresa e a população e suas autoridades. Quando a energia fosse ser desligada na cidade para economizar com vistas ao dia seguinte, as lâmpadas piscariam por três vezes seguidas. Em seguida, um buzinaço da usina era o sinal de que era hora de se procurar velas e lamparinas para escapar do breu total.
Assim que terminaram de ver a novela, Wilson, Bronzeado e Antônio Pires perceberam as luzes piscando e logo foram tratar de se agasalhar para dormir e voltar às lutas do dia seguinte.
Menos para Wilson Pinheiro. Para ele, as luzes se apagaram definitivamente.
Do lado de fora da rua Geni Assis, onde ficava a sede do Sindicato, no centro da pequenina cidade, alguém atirou, três ou quatro vezes. Certeiro, o pistoleiro acertou duas balas no corpo de Wilson Pinheiro, um homenzarrão de quase 2 metros de altura. Alto e magricela, ele se distinguia dos companheiros. As duas balas que lhe vararam o corpo e uma outra que se alojou numa tábua da sala rústica era sinal de que era ele que deveria morrer. Um crime de pistolagem ou de encomenda que, neste 21 de julho de 2025, completa 45 anos de impunidade, sem que a Polícia ou qualquer outro organismo de segurança pública tenha apontado quem foi o autor dos disparos.
Como todo crime que se preze, aquele assassinato teria desdobramento capaz de assombrar inclusive a presidência da República, exercida na época pelo general Joao Batista Figueiredo, o último ditador do regime militar que assaltou a democracia do país em 1964.
**Hora da Onça Beber Água, diz Lula em Brasileia**
Sete dias após aquele crime, na missa de 7º Dia de Wilson Pinheiro, eis que surge naquela Brasileia de poucas almas um sindicalista, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), um operário chamado Luiz Inácio da Silva, que, embora fosse conhecido pelo apelido, ainda não havia registrado o Lula como sobrenome. Ele estava ali como sindicalista e como presidente da comissão provisória do Partido que estava criando, o PT (Partido dos Trabalhadores). Wilson Pinheiro, ao ser assassinado, era também presidente da Comissão Provisória do PT naquela região.
Sobre um caminhão, cabelos negros e revoltos, barba espessa e ainda muito preta, aquele sindicalista, nem de longe, imaginaria que um dia sentaria na cadeira ocupada pelo general João Figueiredo e que se reelegeria em mais dois mandatos presidenciais. Usando o linguajar próprio dos operários de chão de fábrica, ele disse:
– Já estou cansado de andar o país enterrando companheiros mortos na luta. Isso tem que acabar. Penso que está na hora da onça beber água.
Para seringueiros e colonos, aquela frase sobre a onça foi como um recado cifrado. É na hora em que bebe água que a onça, embora o maior e mais letal felino das Américas, se torna presa fácil para seu principal predador, o homem.
Naquele mesmo dia, pelo menos 50 homens ligados ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia e que participaram do ato público com a presença de Lula e de outros figurões nacionais que estavam ajudando a fundar o PT – entre os quais os ainda desconhecidos João Maia da Silva Filho e Chico Mendes, então vereador pelo MDB de Xapuri, de longe avistaram o que para eles eram uma onça prestes a tomar água. Era o fazendeiro Nilo Sérgio de Oliveira, conhecido pro “Nilão” – referência ao seu corpanzil avantajado, gerente da Fazenda “Nova Promissão”, um dos interessados na morte de Wilson Pinheiro e de outras lideranças que se opunham à derrubada das florestas.
Tocados pela frase de Lula ou não, o fato é que os homens que viajavam na carroceria do caminhão mandaram o motorista parar e interditaram a passagem de “Nilão”, que dirigia uma pick-up e estava só, na estrada. Submeteram-no a um duro interrogatório, com “Nilão”, diriam eles depois, até caçoando dos interrogadores. Embora prepotente, ele negava participação no assassinato de Wilson Pinheiro mas, a essa altura, com os nervos inflamados, ninguém queria saber da verdade. Queriam sangue, vingança.
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**Hiamar Pinheiro: Uma noite que não vai terminar nunca por falta de Justiça**
E obtiveram. O corpo de “Nilão” foi crivado de balas, saídas de diferentes armes.
Já longe dali, em São Paulo, Lula e os que o acompanhavam sobre aquele caminhão em Brasileia eram presos – todos acusados de incitamento à luta armada e indiciados pela então vigente Lei de Segurança Nacional, arma da ditadura militar contra seus oponentes.
Solto meses depois, Lula iniciaria uma longa carreira política que o levou a ser candidato a governador de São Paulo em 1982, eleito deputado federal constituinte em 1986, ser três vezes candidato à presidência da República até ser eleito em 2002 para o primeiro mandato.
Em 2001, no acanhado fórum de Brasiléia, a juíza Solange Fagundes inocentou pelo menos 22 réus que foram a julgamento pelo linchamento de “Nilão”. Todos foram absolvidos por falta de provas.
Na plateia do fórum, assistindo ao julgamento, cofiando a barba já um tato grisalha, um dos espectadores chamava a atenção; Era Lula, já se preparando para ser eleito presidente da República, no primeiro mandato.
Para a família de Wilson Pinheiro, no entanto, aquela noite de 21 de julho de 1980, 45 anos depois, por falta de justiça aos culpados pelo crime, ainda não terminou.
“Nem vai terminar”, diz Hiamar Pinheiro, filha e herdeira política do sindicalista assassinado.

