**Tião Maia, com informações de Lamlid Nobre, da Agência de Notícias do Acre **
O 17º governador constitucional do Estado do Acre, Gladson Cameli (Progressistas), ao se manifestar, mais uma vez, sobre a data especial de 6 de agosto para os acreanos, reafirmou que seu governo trabalha buscando seguir os passos do libertador José Plácido de Castro com ações capazes de valorizar o território e o povo acreano. “Honrar essa história é fazer um governo que respeita a identidade do nosso povo. Se no passado a luta era por autonomia, hoje é por progresso, e por isso nosso governo trabalha para cuidar das pessoas com investimentos em infraestrutura, saúde, educação, valorização da agricultura familiar, programas voltados à inclusão social”, o governador, eleito em 2018 e reeleito em 2022.
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**Gladson Cameli**
Gladson Cameli faz a declaração no dia em que é comemorado os 123 anos da declaração de guerra contra o exército boliviano na Intendência localizada no que é hoje a cidade de Xapuri e que na época era chamada Puerto Mariscal Sucre, em homenagem a um dos heróis da independência da Bolívia do jugo da Espanha na América do Sul.
Conta a história que, coincidência ou não, no mesmo dia em que a Bolívia festeja sua independência, Plácido de castro chegou à sede da intendência, onde vivia o intendente Lino Romero, e, de forma nada delicada, bateu à porta. De dentro dos seus aposentos, o intendente, certamente ainda de ressaca face à festa, regada a muito álcool, na noite anterior, respondeu; – Senhor, es mucho temprano oara la fiesta! (em português, em tradução livre, Senhor, é muito cedo para a festa), ao que Plácido de Castro, em legítimo português, afirmou.
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**Plácido Castro, considerado o responsável por arregimentar e liderar as pessoas que lutaram na Revolução Acreana. Foto: Acervo Histórico/Internet**
– **“Não é festa. É revolução”!**
Naquele instante, estava declarada guerra do exército de seringueiros de Plácido de Castro à guarnição boliviana, em Xapuri, no dia 6 de agosto de 1902, dando início à série de batalhas armadas que resultou na incorporação do território do Acre, tomado à bala da Bolívia, ao território brasileiro, a partir de um Tratado, o de Petrópolis, no Rio de Janeiro, em novembro do ano seguinte.
Neste 6 de agosto de 2025, o episódio histórico, que marcou a intensificação do movimento conhecido como Revolução Acreana, é mais uma vez celebrado pelos acreanos em todo o Estado.
Além de diversas atividades, homenagens e eventos que resgatam a memória, ressaltam a importância histórica e cultural, valorizando a força e identidade do povo acreano, a data é marcada por ações e políticas públicas estaduais que materializam o trabalho do governo pelo progresso e o desenvolvimento do Acre.
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**Tropas entrincheiradas durante batalha da Revolução Acreana. Foto: Acervo Histórico/Internet**
Gladson Camelí diz ainda que a revolução do passado inspira as ações de seu governo no presente e que celebrar a Revolução Acreana é também reafirmar o compromisso com a democracia, o desenvolvimento e a justiça social, fazendo ecoar os ideais revolucionários defendidos em 1902.
Para o governador, o Acre de hoje é resultado da resistência de ontem e da capacidade de se reinventar diante dos desafios. “O povo acreano merece seguir avançando, mas sem esquecer nossas raízes, porque só progride quem reconhece de onde veio”, concluiu.
Ao participar do Festival do Povo Shawãdawa, realizado na Aldeia Foz do Nilo, em Porto Walter, Gladson Camelí tornou-se o primeiro governante do Estado a estar na terra do Povo Arara naquela região, resgatando, ao longo de suas gestões, os vínculos da história com os povos originários, cuja participação é suprimida ou pouco lembrada nas narrativas que dominam a historiografia sobre os eventos acerca da Revolução Acreana.
**Eventos narrados pela historiografia**
“Foram exatos 170 dias. Do dia 6 de agosto de 1902 até o dia 24 de janeiro de 1903, quando se deu a rendição final das tropas bolivianas, a Revolução Acreana, que começou em Mariscal Xucre (hoje Xapuri), localidade que na época era ocupada por bolivianos, e terminou em Puerto Alonso (atual Porto Acre), pode ser considerada um dos episódios mais importantes da nossa história durante o século 20″, escreveu o jornalista e historiador Stalin Melo.
Ainda de acordo com este e outros historiadores acreanos, a Revolução Acreana foi marcada pela liderança de Plácido de Castro, gaúcho de 26 anos que já tinha lutado anos antes na Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul, e estava no Acre para trabalhar como agrimensor e, por isso, acabou sendo o responsável por organizar um exército de seringueiros, comerciantes, moradores e trabalhadores da floresta para se insurgirem contra o domínio boliviano.
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**Puerto Alonso, atual Porto Acre, foi o local onde findou a Revolução Acreana, com a rendição da tropa boliviana seis meses após a primeira batalha. Foto: Acervo Histórico/Internet**
A ocupação do Acre por brasileiros já ocorria desde a década de 1880, motivada pelo ciclo da borracha, o “ouro branco”, que transformaria a floresta em rota de disputas econômicas. A chegada de nordestinos, que fugiam da seca e viam na floresta uma chance de recomeço, atraiu a atenção para uma região que, até então, despertava pouco interesse do governo boliviano, por ser de difícil acesso. Quando a Bolívia passou a cobrar impostos pela exploração da borracha, os ânimos se acirraram.
A historiografia acerca do período narra que a Revolução, que começou como uma disputa pelo controle da borracha, envolveu diversas fases: a insurreição de 1899, o Estado Independente do Acre, a breve República proclamada por Luís Galvez e a chamada Expedição dos Poetas. Todas ajudaram a consolidar o sentimento de pertencimento brasileiro e pavimentar a formação de um novo estado do Brasil.
A ofensiva vitoriosa começou estrategicamente no dia em que a Bolívia comemorava sua independência, uma vez que, para eles, o dia 6 de agosto é o que significa o 7 de setembro para os brasileiros. Aproveitando a distração da “festa boliviana”, Plácido e sua tropa tomaram Xapuri, poupando munição para os embates que estavam por vir nos próximos meses.
Conforme descreveu Melo, não houve disparo de tiros, dada a vantagem da suposta embriaguez alcoólica dos bolivianos, e, a partir daí, em menos de seis meses, as tropas organizadas por Plácido de Castro venceram as resistências bolivianas. Em Puerto Alonso (atual Porto Acre), o confronto terminou em janeiro de 1903 quando, prestes a acontecer o ataque decisivo, veio o sinal de paz, uma bandeira branca que simbolizava a derrota boliviana em sua última posição militar. Lino Romero tirou a espada e a entregou a Plácido de Castro, que, emocionado, disse: “Senhor coronel, não fazemos a guerra senão para conquistar o que é nosso”.
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**Látex da seringueira, o chamado ‘ouro branco’ que atraiu a atenção do mundo para o território acreano no século passado. Foto: Acervo Secom**
Posteriormente, a assinatura do Tratado de Petrópolis, fruto da diplomacia brasileira conduzida pelo Barão do Rio Branco, oficializou a anexação do Acre ao Brasil em 17 de novembro de 1903, e em setembro de 1909 o Tratado do Rio de Janeiro ajustou os limites com o Peru, consolidando a soberania brasileira sobre a região, incorporando 152 mil quilômetros quadrados de terras, antes bolivianas, ao Brasil.
Com isso, a história da Revolução, narrada em livros, contada em trechos do hino acreano e até mesmo na minissérie “Amazônia – de Galvez a Chico Mendes”, exibida pela TV Globo em 2007, segue viva na memória popular e é também tema constante nas escolas e nas ações de governo voltadas à valorização da história acreana.
Apesar da predominância das narrativas que enaltecem a bravura e resistência dos seringueiros que se insurgiram contra o domínio boliviano, historiadores contemporâneos como o professor Sérgio Souza, da Universidade Federal do Acre (Ufac), chamam a atenção para a necessidade de revisitar a história sob outras lentes e reconhecer que o movimento ocorreu em terras já ocupadas por povos originários, como em todo o território do Brasil.
“Foi um processo de colonização que excluiu os povos originários. O Acre já era habitado antes de bolivianos e seringueiros disputarem o território”, pontua. Para ele, o Acre foi inventado pela lógica colonial e pela força do mercado da borracha que explorou a mão de obra local.
“A chamada Revolução Acreana é parte de um processo de expansão do mundo moderno colonial, cuja lógica é desenvolver processos intensos de racialização [processo em que grupos passam a ser designados como pertencentes a uma “raça” específica para justificar um tratamento desigual] de populações colonizadas, de exploração de suas riquezas de seus territórios e dessa mão de obra”, explica.
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**A imensidão da floresta que ainda hoje resiste e cobre a maior parte do território acreano conquistado para o Brasil. Foto: Acervo Secom**
Em outras palavras, segundo ele, a Revolução Acreana foi uma disputa pela seringa em abundância que a região mantinha em uma época que a matéria-prima, no caso a borracha, estava em alta no mercado internacional e, portanto, faz-se necessário lembrar que, “na verdade, foi um processo de colonização e que é preciso reconhecer os demais atores dessa história”: indígenas que, antes de bolivianos e seringueiros, já ocupavam este território que, mais tarde, veio a atrair os mais de 20 mil outros brasileiros, em sua maioria nordestinos, que migraram para a região em busca de sobrevivência.
Esse recorte reforça o sentimento de orgulho e de pertencimento que permanece forte na cultura do povo acreano, resultado da soma de múltiplas heranças: indígenas, nordestinas e amazônicas – numa região marcada pela tríplice fronteira com rios que unem histórias-, que ainda guardam nos hábitos e na linguagem os traços dessa trajetória de luta.
Mais de um século depois, o espírito de resistência e superação permanece vivo. A defesa do Acre é hoje feita com investimentos pelo governo do Estado, que trabalha com o mesmo espírito de coragem e transformação. Assim como os revolucionários acreanos lutaram por dignidade, a atual gestão estadual atua na implementação de políticas públicas para garantir oportunidades e desenvolvimento socioeconômico para a população acreana.
Ao longo de seus mandatos, o governador Gladson Cameli tem trabalhado para fortalecer essa história, resgatar as raízes e unir o desenvolvimento à preservação, dando espaço para que cada ator deste contexto dialogue entre si e consiga resultados positivos, que impactam diretamente em melhorias para a população.
“Como gestor de um estado, tenho consciência que só podemos avançar cada vez mais olhando para trás, conhecendo nossa história, para que a gente consiga progredir respeitando todos os setores e ouvindo quem tem propriedade para falar. Se antes a luta era por território e soberania, agora é por cidadania plena, sustentabilidade e qualidade de vida. Governo para todas as pessoas de forma democrática, reconhecendo o passado, dialogando no presente, planejando o futuro com responsabilidade e tomando decisões com base naquilo que é melhor para o povo”, afirma Camelí.

