Eleitores de Trump se declaram arrependidos

Dilson Ornelas (*)
Seis meses após o início do segundo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, em 2025, milhares de eleitores manifestam arrependimento por terem votado nele. Chego a essa conclusão após olhar hoje cedo os principais jornais daquele país e algumas redes sociais.
Vejo comentários como “Eu confiei em você” e “Arrependo-me de ter votado nesse homem”, que se multiplicam rapidamente com curtidas e compartilhamentos. Por que essa insatisfação surge tão cedo, considerando que decepções são comuns na política, já que líderes raramente conseguem agradar a todos?
O estilo direto de Trump, aliado a decisões inesperadas e problemas na condução econômica, parece ter contribuído para desagradar muitos, incluindo seus apoiadores. Suas políticas, como o aumento de tarifas sobre produtos importados de países aliados, elevaram nos Estados Unidos os preços de itens essenciais, como alimentos e combustíveis, impactando diretamente a vida dos americanos.
Segundo pesquisas, 52% da população, incluindo parte dos eleitores de Trump, desaprovam essas medidas. Até mesmo eleitores independentes, menos vinculados a partidos, mostram descontentamento, com 60% rejeitando as ações do presidente.

Tarifas contra o Brasil e inflação
O jornal The Washington Post destacou que as tarifas de 50% impostas ao Brasil, entre outras medidas protecionistas, podem intensificar a inflação nos Estados Unidos, contrariando promessas de campanha de reduzir preços. A Oxford Economics estima que a taxa tarifária efetiva dos EUA pode chegar a 20%, encarecendo produtos como café, carne e aço. Essas medidas frustram eleitores que esperavam alívio econômico. O The New York Times observou que Trump utiliza tarifas como ferramenta de pressão política, como no caso do Brasil, onde a suspensão de tarifas foi condicionada à interrupção de processos contra Jair Bolsonaro. Essa abordagem, motivada por questões pessoais e ideológicas, decepciona eleitores que priorizavam benefícios econômicos.

Imigrantes e impacto econômico

Na campanha de 2024, Trump prometeu a “maior operação de deportação da história americana”, segundo o UOL divulgou por aqui. Além disso, propostas para limitar a imigração legal e eliminar a cidadania automática para nascidos nos EUA geram críticas.
A TV mostra agentes de Trump arrancando à força as pessoas do convde suas famílias, sequestros em locais de trabalho, nas igrejas, supermercados. Essas medidas afetam setores como agricultura e construção, que dependem de mão de obra imigrante, frustrando eleitores que esperavam proteção aos trabalhadores americanos sem prejuízos econômicos.

Promessas de paz não cumpridas
O jornal The Guardian aponta que Trump prometeu, em 2024, encerrar conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio. No entanto, suas ações, incluindo o suposto envolvimento em tensões com o Irã, são vistas como incoerentes com o discurso de campanha. Eleitores que esperavam uma postura firme na promoção da paz global expressam decepção com o que consideram uma abordagem cínica. Trump dizia que ganharia o Nobel da paz, mas espalha insegurança e medo mundo afora.

Apoio perdido
O movimento MAGA (“Make America Great Again”), que reúne apoiadores de Trump desde 2016, também mostra sinais de descontentamento. O lema, que defende a recuperação econômica, proteção de empregos e restrição à imigração, atraiu trabalhadores conservadores. No entanto, figuras influentes do movimento começam a se posicionar contra o presidente. A congressista Marjorie Taylor Greene, por exemplo, criticou um suposto ataque militar a instalações nucleares no Irã, afirmando: “Isso não é nossa luta.”
Entre os eleitores, a insatisfação também cresce. Justin Centers, um jovem de 21 anos de um subúrbio de Detroit, representa o perfil de novos votantes que apoiaram Trump, influenciados por figuras como o comediante Theo Von. Centers, que votou pela primeira vez em uma eleição presidencial, declarou à CNN: “Votei em Trump por causa da promessa de ‘sem novas guerras’, mas isso foi uma grande mentira. Estou extremamente decepcionado.” Theo Von, que entrevistou Trump em seu podcast e esteve presente na posse, também criticou o bombardeio ao Irã, afirmando que a ação faz os EUA parecerem “a serviço de Israel”.
Outras vozes do movimento MAGA ecoam sentimentos semelhantes. O apresentador Joe Rogan, que endossou Trump após uma entrevista em seu podcast, chamou a repressão à imigração de “insana”. O comediante Andrew Schulz, outro apoiador, disse no podcast Flagrant que Trump “está fazendo o oposto do que prometeu”. Até mesmo jogadores profissionais de pôquer, uma comunidade inesperada, criticaram um projeto de lei tributária que os obriga a pagar impostos mesmo em caso de perdas, aumentando a sensação de desilusão.

O impacto político

A frustração com Trump, expressa por eleitores e influenciadores, incluindo o bilionário Elon Musk, que doou uma enorme quantia para a campanha, pode alterar o cenário político americano. As eleições legislativas de 2026, que renovarão o Congresso, serão um termômetro para medir o impacto dessa insatisfação. A confiança abalada, especialmente entre trabalhadores e eleitores que viam em Trump um defensor de seus interesses, sugere que o apoio ao presidente não é mais incondicional.

**(*) Colaborador no Rio de Janeiro**

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