Tião Maia, O Aquiri
Nesta primeira semana de julho de 2025, os governos do Brasil e da China avançaram ainda mais nas tratativas do acordo para o projeto de ferrovia que liga os oceanos Atlântico ao Pacífico, passando prelo Acre. Uma troca de memorandos as empresas estatais China Railway e a brasileira Infra, ligada ao Ministério dos Transportes, prevê troca de informações técnicas sobre projeto ligando litoral do Peru a Ilhéus, na Bahia, informou em Brasília o secretário nacional de transporte ferroviário do Ministério dos Transportes, Leonardo Ribeiro, confirmou o andamento dos acordos.
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“Esse memorando e os passos que estamos dando agora são resultados de uma atuação diplomática e técnica iniciada em abril entre o governo brasileiro e a China. Do nosso lado, já avançamos bastante com a Fico e a Fiol. Essa parceria ajuda a avançar do lado peruano”, comentou o secretário.
Pelo acordo, a estatal Infra S.A., ligada ao Ministério dos Transportes, será o canal responsável pela articulação, coleta de dados, estudos ambientais e suporte institucional do projeto. Do lado da China, o projeto será tocado por um grupo técnico liderado pelo China Railway Economic and Planning Research Institute.
A previsão é a construção de uma ferrovia saindo do Porto Chancay, a 80 quilômetros da Lima, a capital, no litoral do Peru, onde os chineses já estabeleceram um dos maiores portos da América Latina. A ferrovia avançaria pelo território peruano até Cusco e Pucallpa, chegando até o Acre, no Brasil. A dúvida é se a Ferrovia, no território acreano, teria continuidade pelo chamado Alto Acre, onde já há ligação terrestre do Brasil com o Peru por uma ponte sobre o rio Acre ligando as cidades de Inapari e Assis Brasil ou se de Pucallpa o avanço seria através do Vale do Juruá, passando pelas cidades de mâncio Lima e Cruzeiro do Sul.
Para o governo brasileiro, a dificuldade de continuidade da ferrovia pela região do Juruá porque ali está o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma unidade de conservação brasileira de proteção integral da natureza localizada na fronteira com o Peru, com território distribuído pelos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves. A administração do parque está atualmente a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), uma autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente cuja ministra, acreana Matina Silva, já se manifestou contra qualquer obra física que altere o Parque. A alegação é de que o parque concentra a maior biodiversidade do planeta e também é lá de povos indígenas ainda não totalmente contatados e dos quais pouco se sabe. Dai a pressão para q eu o traçado da Ferrovia chegue ao Acre por Ianapari e Assis Brasil.
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A partir de Rio Branco, o projeto ferroviário prevê a construção de um traçado que cruzaria Rondônia, nas proximidades da BR-364, até chegar a Mato Grosso, onde já está em construção parte da Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste). A malha, ligada à Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), cruzaria Goiás e entraria na Bahia, para terminar nas margens do porto Sul de Ilhéus. Ao todo, são aproximadamente 4,5 mil km de ferrovias neste traçado.
O corredor ferroviário é visto como um dos maiores projetos logísticos do mundo, com potencial de reduzir em até dez dias o tempo de transporte de cargas entre os portos brasileiros do Atlântico e os mercados asiáticos, via porto de Chancay. Estima-se que cerca de US$ 350 bilhões por ano em exportações brasileiras tenham como destino a China, dos quais 60% correspondem a minério de ferro e soja.
“Esse acordo abre portas para que a China passe, efetivamente, a participar dos projetos brasileiros. No fim do dia, esse trabalho vai dar ainda mais segurança para atração de novos investimentos”, disse Leonardo Ribeiro.
Uma série de reuniões e encontros bilaterais foram realizados nos últimos meses, incluindo visitas presidenciais entre Brasil e China e constantes viagens de equipes técnicas de ambos os países. Em maio, uma delegação de 11 autoridades chinesas fez visitas de campo a obras como as ferrovias Fico e Fiol, que devem cortar o Brasil de leste a oeste, interligando a área produtora de grãos de Mato Grosso ao litoral baiano, em Ilhéus.
O grupo chinês também passou pelo porto de Santos, que está próximo de realizar o leilão de seu novo terminal de contêineres, previsto para ser o maior empreendimento deste tipo já realizado pelo Brasil. A estatal chinesa Cosco Shipping é nome por trás do novo complexo portuário de Chancay, que fica a 70 km da capital peruana, Lima. Com investimento total de US$ 3,5 bilhões (mais de R$ 20 bilhões na cotação atual) Chancay é hoje o maior empreendimento chinês fora do país asiático. Depois de uma inauguração simbólica em novembro do ano passado, vai começar a operar efetivamente em março.
Na área rodoviária, a integração está mais adiantada em relação ao projeto que passou a ser chamado de “Corredor Bioceânico”, desta vez envolvendo o Chile. A nova rota será viabilizada a partir de uma série de estradas que já existem, além de trechos que passam por obras de melhorias e pequenos traçados em fase de pavimentação.
O traçado sai do Brasil, atravessando o Paraguai e a Argentina, até chegar ao Chile. Uma ponte, que conectará Porto Murtinho (MS), no Brasil, a Carmelo Peralta, no Paraguai, é a principal obra do projeto, e está sendo realizada pela Itaipu Binacional, em acordo com o Paraguai.
A travessia está em fase de construção e, segundo a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, será concluída em maio de 2026. Outros 200 km de pavimentação estão em andamento no território paraguaio e deverão estar asfaltados até dezembro do ano que vem, embora a pavimentação tenha previsão de ser concluída antes disso.
Com esses dois empreendimentos, o corredor rodoviário estará viabilizado, segundo Tebet, interligando os portos brasileiros do Sudeste e do Sul do Brasil, no Atlântico, até os portos do Chile, no oceano Pacífico.
A extensão total entre Campo Grande (MS) e os portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, por exemplo, é de aproximadamente 2.400 km. Hoje, caminhões com carnes e grãos que saem de Mato Grosso do Sul precisam descer até o Rio Grande do Sul para, a partir de lá, seguir até o Chile, num percurso muito maior.
Em parceria com países vizinhos, o governo brasileiro tem trabalhado, desde 2023, no programa Rotas de Integração Sul-Americana, que prevê cinco caminhos de acesso a países de fronteira com o Brasil. A conexão mais viável e avançada, neste momento, é a chamada “Rota 2”, que prevê a interligação do Peru com o Brasil por meio da hidrovia do rio Solimões, que forma o rio Amazonas.

