Fraude no INSS: Onde Estão as Prisões?

**Dilson Ornelas, do Rio de Janeiro**

O governo deu um passo importante ao iniciar o reembolso de 1.052.128 aposentados e pensionistas, cerca de metade dos que sofreram descontos indevidos em seus contracheques nos últimos cinco anos. Essa é uma medida necessária — afinal, essas pessoas, muitas com necessidades urgentes, dependem desse dinheiro para sobreviver. Mas, enquanto as indenizações começam a chegar, uma pergunta ecoa: onde estão as prisões dos responsáveis por esse esquema bilionário?

A lentidão na punição dos fraudadores é, no mínimo, frustrante. É compreensível que o governo, em ano pré-eleitoral, pese os impactos políticos de acelerar ou retardar investigações. O cálculo eleitoral é uma realidade, mas a demora em agir não reforça a percepção de ineficiência ou, pior, de conivência?

Nas redes sociais, especialmente no X, as críticas se multiplicam. Há quem questione se o presidente Lula estaria protegendo aliados ou se, entre os fraudadores, figuram nomes ligados ao PT ou a partidos da base. Só uma investigação isenta e rigorosa da Polícia Federal pode esclarecer essas suspeitas. Pessoalmente, duvido que Lula, com sua experiência política, arriscaria sua credibilidade para acobertar corruptos. Mas a ausência de respostas concretas alimenta a desconfiança. E você, o que acha?

A corrupção, infelizmente, não é novidade no Brasil. Não vou entediar você, leitor, listando escândalos históricos — eles já são até parte do nosso folclore político. Como jornalista, não tenho lado, nem paixão ideológica. Deixei as bandeiras ideológicas para os jovens que ainda sonham em mudar o mundo, mas acho difícil que consigam fazer boas mudanças em um cenário de muita polarização e pouca inteligência. Minha missão, hoje, é simples: questionar, provocar e buscar a verdade que muitas vezes se esconde no silêncio. E, nesse caso, o silêncio da grande mídia sobre a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, é ensurdecedor.

Não me entenda mal: é louvável que as vítimas estejam sendo indenizadas. Mas é preciso colocar os pingos nos is. Quem lesou os aposentados foi um esquema que operava sob as barbas do governo, e quem está pagando a conta de R$ 3,3 bilhões é o contribuinte, com dinheiro de impostos. Comemorar isso como se fosse um gol é, no mínimo, ingênuo. Jornalista não deveria se contentar com o que é dito, mas desconfiar do que é omitido. A melhor história, como já dizia o velho adágio, está sempre escondida atrás do silêncio — e arrancá-la exige insistência e perguntas incômodas.

**Um contraste gritante**

A sensação de morosidade na investigação da fraude do INSS ganha força quando comparada a outro caso recente. Na semana passada, um ataque hacker desviou milhões de reais de instituições financeiras no Brasil, e a resposta foi fulminante. Em poucas horas, a Polícia Federal identificou João Nazareno Roque, de 48 anos, funcionário terceirizado da C&M Software, que confessou ter vendido seu login e senha por R$ 15 mil. Após sua prisão, em 3 de julho de 2025, mais dois suspeitos foram detidos em Goiás, e buscas foram realizadas no Pará. A Justiça bloqueou R$ 270 milhões em contas, confiscou R$ 5,5 milhões em criptoativos e investiga 29 empresas e 40 instituições envolvidas. O prejuízo estimado varia entre R$ 541 milhões e R$ 1 bilhão, na maior invasão eletrônica já registrada no país.

**Resolução rápida, resultados concretos.**

Enquanto isso, na fraude do INSS, o ritmo é outro. Após quatro meses, a Operação Sem Desconto resultou em 211 mandados de busca e apreensão, seis prisões temporárias em Sergipe e o sequestro de bens avaliados em R$ 1 bilhão, incluindo carros de luxo, joias e dinheiro. A Advocacia-Geral da União (AGU) bloqueou R$ 2,8 bilhões em bens de 12 entidades associativas, seis consultorias, dois escritórios de advocacia e três empresas. São números expressivos, mas insuficientes. Até agora, não há indiciamentos formais, e as seis prisões parecem irrelevantes diante da gravidade do esquema, que pode ter movimentado até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

**Um escândalo bilionário**

O Ministério da Fazenda estima que os descontos indevidos — eufemismo que a grande mídia insiste em adotar — variam entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões, enquanto o ministro Wolney Queiroz mencionou até R$ 3 bilhões. O INSS calcula que 4,1 milhões de beneficiários foram lesados, com descontos mensais entre R$ 20 e R$ 50, que, multiplicados por milhões de vítimas, geraram um rombo bilionário. Associações e sindicatos, que deveriam proteger aposentados e pensionistas, mas são apontados como os principais responsáveis.

**A lentidão não é o único problema. **

A atitude do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, também decepciona. Ele arquivou rapidamente um pedido de investigação por prevaricação contra o ex-ministro Carlos Lupi, o ministro Wolney Queiroz e Alessandro Stefanutto, alegando falta de indícios. A decisão, embora tecnicamente fundamentada, soa como um balde de água fria para quem espera justiça.

**O papel da imprensa e da sociedade**

A imprensa, que deveria ser a guardiã da verdade, muitas vezes falha. Chamar a fraude de “descontos indevidos” é minimizar um crime que lesou milhões de idosos e viúvas. A sociedade, independentemente de cores partidárias, não pode deixar esse escândalo cair no esquecimento, especialmente porque as indenizações saem do bolso do contribuinte. A Operação Sem Desconto precisa de mais holofotes, mais perguntas e menos silêncio.

O governo argumenta que prisões dependem de provas robustas, como risco de fuga ou obstrução da justiça. Até agora, apenas seis pessoas foram detidas temporariamente — peixes pequenos em um oceano de irregularidades.

A PF abriu 12 inquéritos para investigar corrupção, falsificação de documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. É um começo, mas está longe de ser suficiente. A verdade exige paciência, mas também pressão. Cabe à sociedade, à imprensa e aos cidadãos cobrar que a justiça seja feita. Porque, no fim das contas, a história de um país não se constrói com indenizações pagas com dinheiro público, mas com a coragem de punir quem rouba os mais vulneráveis, para que a impunidade não incentive novos assaltos.

**Cadê as prisões?**

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