**Ele começou a vida vendendo doces e calçados com uma bacia na cabeça nas ruas de Rio Branco e agora busca mudar o conceito no mercado de vendas de automóveis e outros equipamentos usados**
**Tião Maia, O Aquiri**
Ele é o típico acreano forjado no trabalho, o que conheceu ainda criança como vendedor de salgados e doces como bolo, banana frita, pé-de-moleque, quibe de arroz, charuto – enfim, tudo o que coubesse numa bacia que equilibrava na cabeça numa atividade cujos patrões, se é que assim poderiam ser chamados, eram seus próprios pais, Guiilhermina Lopes de Miranda e Tertuliano Monteiro de Miranda – ela já falecida. Manoel Francisco Lopes de Miranda, o Manuel Manolo ou Manelzinho, hoje com 59 anos de idade, era aquele pequeno vendedor que ajudava nas despesas de casa com aquelas pequenas vendas, que depois evoluíram para venda de pão e a prestação de serviços como lustrador de sapatos, como “engraxate dos turcos”, os ricos, como eram definidos os comerciantes cujas lojas ficavam principalmente na Rua do Comércio, hoje Cunha Matos, a chamada Rua da Gameleira, que dá acesso ao local onde, conta a história, a cidade foi fundada por Neutel Newton Maia – teria sido na Gameleira que o velho e pioneiro comerciante ancorou seu barco para desembarcar e fundar o vilarejo que anos mais tarde seria a Capital do Acre.
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**Ele é o típico acreano forjado no trabalho**
Casado, com um casal de filhos já adultos, Manolezinho saiu do anonimato quando passou a aparecer em campanhas publicitárias, inclusive na TV, como garoto propaganda da loja de carros importados e de luxo na qual tralhava, a Mitsubishi, em Rio Branco. Durante anos, praticamente todos os dias, ele surgia em alguma peça publicitária com a frase que se tornaria seu jargão pessoal: “Vamos falar de coisa boa?”, ele propunha. E deitava falatório sobre a potência e utilidade dos carros que vendida. Ou pretendia vender.
Mas, de repente, Manoelzinho sumiu da TV. Deixou de aparecer e falar. E não é porque seu estoque de propostas comerciais tenha acabado ou que não haja mais nada a falar sobre coisa boa. O garoto propaganda havia envelhecido, no conceito de seus patrões. Foi demitido. Manoelzinho precisaria se reinventar.
Uma história, guardadas as devidas proporções, que lembra a do norte-americano Lido Anthony, internacionalmente conhecido como “Lee” Iacocca, que viveu de 1924 a 2019, um empresário estadunidense de origem italiana que foi considerado uma das pessoas mais representativas e inspiradoras da indústria automobilística do final do século XX e início do do século XXI, Iacocca tornou-se célebre por ter lançado o Mustang, o malfadado Ford Pinto, tendo sido demitido da Ford Motor Company, e por ter reerguido a Chrysler Corporation nos anos 1980. Foi presidente e CEO da Chrysler de 1978 até sua aposentadoria em 1992, além de o único executivo nos últimos anos a presidir as operações de duas das três grandes montadoras automobilísticas estadunidenses, o que ele fez durante diferentes anos.
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**Ele segue os passos do homem que balançou o mercado de automóveis dos Estados Unidos**
Uma história um tanto quanto parecida com a de Manoelzinho, a qual o nosso Lee Iacocca em miniatura não conhecia. Mas, ainda assim, sem saber, segue os passos do homem que balançou o mercado de automóveis dos Estados Unidos a passar a vender automóveis usados. Como não é fácil se comprar um carro usado de quem o comprador não conhece, Lee Iacocca encheu as ruas principais cidades norte-americanas com outdor’s, com sua foto e uma pergunta:
**- Você comprar um carro usado deste homem?**
A campanha publicitária remetia àquele vendedor de automóvel a imagem da seriedade e garantia de um bom produto, apesar do uso. O fato é que, depois de ter utilizado o veículo usado no mercado de automóvel dos Estados Unidos e daí para o resto do mundo, o vendedor ficou tão famoso que teve seu nome cogitado até para ser candidato a presidente dos EUA, o que ele nunca aceitou.
Diferente de Manoelzinho só o fato de que o nosso Lee Iaccoca tupiniquim já quis enveredar da política, mas não foi lá muito aceito no mercado do voto. E voltou-se para o que sabe fazer: negócios. E está de volta ao mercado vendendo, além de veículos usados, serviços em várias ares da venda.
A seguir, uma entrevista com o pequeno Lee Iaccoca acreano. Ele conta como tudo começou a seguir:
**Como é que começou a tua vida como vendedor? **
**Manoel Miranda – **Na realidade, eu comecei vendendo kibe e vendendo banana… Acho que com sete, oito, nove anos já comecei a fazer esse trabalho.
**Você trabalhava para quem? Para sua mãe, para seus pais?**
**Manoel Miranda –** Era para minha mãe, para o meu pai. Era para a gente sobreviver. Minha mãe era faxineira e meu pai estivador. Ganhavam muito pouco. Por isso, eu procurava ajudar em casa vendendo banana, peixe, kibe. Depois passei a ser engraxate. Lembro que, na época, como hoje, com esse negócio das facções, havia aquela disputa entre os meninos da 6 de agosto com os outros de outros bairros, do Triângulo, do Quinze., com o pessoal do Primeiro Distrito. Se a gente saísse do bairro da gente, e fosse pego em outro bairro, era peia na certa. Era época das Tropas, mas sem o uso de armas, sem esse grau de violência das facções. Por isso, eu só atuava nas redondezas e ficava por ali até a Gameleira, entre a ponte da 6 de Agosto e a Gameleira. Não pedia muito para Cidade Nova pois quem era de lá, não deixava a gente entrar.
Na Gameleira, passei a trabalhar de engraxate de sapatos dos comerciantes que ficavam por ali por perto da Gameleira, na rua do Comércio. Depois, meu pai me apresentou ao empresário Rodolfo Amaral Gurgel, que era um donos da Agroboi, onde meu pai era estivador. Rodolfo me chamou para fazer faxina. Os donos da Agroboi na época eram, além do Rodolfo, os irmãos Romário (o Alemão, falecido num acidente automobilístico na BR-317, em Capixaba, em 2004) e o Roque Barreiros e o Rodolfo era cunhado dos dois.
Aí a família, com o “Alemão” à frente, expandiu o agronegócio para a venda de tratores e peças. E levou cinco funcionários da Agroboi para o que o futuro seria a Mitsubishi . Isso era em 1983 ou 1984. Comecei ali como faxineiro e depois como vendedor. Vendia peças, parafusas, arruelas porque inicialmente ali era uma casa de ferragens, que também vendia ferragem, lona preta, enxada – naquela época igual loja de turco, onde havia de tudo, um Bazar Chefe da época. Em seguida, começamos a trabalhar com tratores agrícolas. Foi uma época difícil porque o Acre não tinha, ainda, muita afinidade com a agricultura. Para você ter uma ideia, nós passamos 12 anos sem vender tratores. Complicado. Mas, depois de 112 anos, começou o movimento político que começou o movimento que falava de agricultura e pecuária.
**Quando esse comércio de máquinas começou de fato no Acre?**
**Manuel Miranda – **Começou antes, mas só deslanchou mesmo no governo de Jorge Viana, a partir de 1998, quando conseguimos fazer uma venda boa de tratores. Nessa época os tratores eram Valmet e que agora é Valtra. Aí assim, terminou o período, parou a agricultura novamente, não se vendeu mais trator. Aí começamos a vender veículos da Ford. O empresário Eduardo Souza Ramos foi que começou a montar. Aí veio Mitsubishi , com veículos importados do, mas o que era importado começou a ser fabricado, as picapes 4×2, em Manaus, no Amazonas, e depois em Catalão, Goiás. Nesse período nós, do Acre, fomos a segunda concessionária do Brasil, a segunda concessionária Mitsubishi do Brasil em vendas. A gente sempre estava no topo de vendas do Brasil. Primeiro, segundo, terceiro até o décimo lugar de venda do Brasil. Um Estado pequeno como o nosso. A gente sempre chegou nesse nível de décimo segundo, quinto, quarto lugar, em nível nacional.
**O que explica um Estado pequeno como o Acre, como você citou, vender tanta caminhonete de luxo?**
**Manuel Miranda – **Na realidade é o seguinte: a maioria dos municípios do Estado, não tinha asfalto. Até pouco tempo, por exemplo, eu organizava um rally da Mitsubishi para Cruzeiro do Sul. Por que que eu organizava esse rally? Eu montei um calendário pra gente rodar até Cruzeiro do Sul e saía de Rio Branco e passando pelo Bujari, Sena Madureira, Feijó, Tarauacá e chegava em Cruzeiro do Sul. A gente fez um trabalho nesses municípios para inserir a caminhonete como um veículo utilitário mesmo pra região. Então foi um trabalho muito intenso. Fiz esse trabalho durante 27 anos, com apelo direto ao consumidor final. A gente fez com que a caminhonete não fosse apenas um carro de luxo. Inclusive a gente sofreu, quando falava em luxo. Quem usa muito aquele tipo de veículo são os produtores rurais. Havia uma linha de crédito que o governo incentiva a venda para alguns produtos. Então, antigamente, como era o veículo utilitário, o governo federal liberava uma linha de crédito para se comprar esse produto na época. E muita gente começou a ficar falando que os produtores rurais tiravam financiamento para ficarem luxando com a caminhonete. Então, eliminaram essa linha de crédito para os produtores. Mas, em outras situações, o governo proibia você utilizar a carroceria como transporte. Então, foi o que aconteceu. Bloquearam já a cabine simples e deixaram só a cabine dupla. Eliminaram a cabine dupla como incentivo e deixaram só a cabine simples. Mas a cabine dupla ainda é muito útil para os produtores rurais.
**Você trabalhou na Mitsubishi por quantos anos? **
**Manoel Miranda -** Acho que uns 30 anos. Não, 28 anos mais ou menos, mas tenho que consultar a data.
**Por que você saiu? Ou foi demitido?**
**Manoel Miranda – ** A realidade é a seguinte: a direção da loja achou melhor mudar o quadro de funcionário, depois de 40 anos de empresa, achou melhor colocar pessoas novas à frente. Não sei se, de repente, se poderiam estar achando que a minha idade já estava ultrapassada. Foi o que deram a entender porque não houve motivo para a demissão. Penso que estão achando muitas vezes que a internet vende carro, não é? A internet vende, sim, mas abre muito o mercado, não é? Então, quando você abre o mercado para a internet, abre também um espaço para você comprar o veículo em qualquer lugar do país. E o que é que acontece com as empresas estabelecidas no Estado? Você vai sofrer uma concorrência em nível nacional. Então, assim, eu acho que, de repente, o meu jeito, a minha abordagem, eles acharam que já estava ultrapassado para o mercado de hoje. Porque eu sou mais humanizado. Eu sou mais de fazer um cliente no corpo a corpo, no dia a dia. Vamos falar de coisa boa é o meu slogan. Eu gosto de ter relacionamento com os meus clientes. Eu gosto de chegar na fazenda, eu gosto de chegar no município da pessoa. Eu gosto de entrar em contato todos os dias com cliente e trata-lo de forma especial. Comecei então a aparecer na TV porque tinha que vincular uma pessoa ao produto. Foi o que aconteceu. isso gerou uma situação em que eu fiquei muito conhecido dentro do Estado. Por isso, é bem provável que tenham criado uma certa ciumeira dentro da empresa, porque eu estava parecendo demais. Isso foi bom para a empresa depois de um certo período, mas depois criou uma certa ciumeira. Acharam que eu estava aparecendo mais que a própria empresa.
**E agora o que você vai fazer? Vai continuar vendendo carro, agora carro usado?**
**
Manoel Miranda -** Agora é o seguinte. Com esse período, com esse tempo que eu estou trabalhando, eu consegui economizar, comprar alguns imóveis e construir algumas salas para alocar. Montei um espaço que está funcionando, uma garagem que eu coloquei e estou abrindo outra onde eu irei montar o meu escritório. Inclusive, o nome dessa empresa vai ser Revisa. E a Revisa é o seguinte: ela vai ter uma visão nova de como fazer comércio. Tanto é que o símbolo da Revisa vai ser um mecanismo. Tudo que você falar, que você precisa, uma máquina, um equipamento, você precisa comprar uma bicicleta, você precisa vender uma fazenda, você precisa de emprego, a Revisa vai facilitar para você. Se você precisa de emprego, ela vai te colocar no mercado de trabalho. Vai tentar fazer parcerias para te colocar no mercado de trabalho. Se você tem alguma máquina de equipamento, eu vou correr atrás de clientes para você.
**E vai ter carros usados para a venda?**
**Manoel Miranda –** Sim, veículos usados, com certeza.
**Você conhece a história do empresário Lee Iaccoca, nos Estados Unidos, que saiu de uma grande empresa e passou a vender carros usados?**
**Manoel Miranda –** Sinceramente não conheço, mas vou pesquisar. Mas se o empresário que você citou, se naquele tempo, ele conseguiu chegar ao topo, chegou até ser cotado a ser presidente dos Estados Unidos, sem essa comunicação que temos hoje, imagine agora, com toda essa comunicação que nós temos. Então é assim: nós temos o poder de crescer se tivermos e persistência, tanto que agora eu estou trabalhando sábado e domingo para mudar a dinâmica de fazer trabalho no Estado, porque você só trabalha sábado, sexta-feira já comemora, você trabalha até sábado no meio-dia, sexta-feira já comemora o sextou e no outro dia você trabalha, entra oito horas, muitas empresas abrem oito horas e fecham ao meio dia. Agora eu vou trabalhar o sábado e domingo porque aquelas pessoas que não têm tempo na semana, no sábado e o domingo tem onde bater o papo e levar o seu produto para trabalhar a venda. Aquele que trabalha tem sempre com quem interagir. E realmente quem trabalha não tem hora e não tem dia, não é?

